Quem passa por aqui

Um sonho sonhado sozinho é um sonho. Um sonho sonhado junto é realidade.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Todo mundo explica

http://www.webletras.com.br/resize.asp?path=artistas%5CRaul-Seixas_450x300_741.JPG&height=140&maxw=409Umas das letras mais elucidativa do Raul, da qual ele usa elementos religiosos e filosóficos intrigantes, através dessa música somos capazes de perceber a mente confusa e ao mesmo tempo cheia de respostas que era a mente de Raulzito, como sempre usando pitadas de humor, uma música poética com linguagem simbólica exotérica. Prestem muita atenção a cada linha:

http://www.radio.usp.br/imagens/raul1.jpg
Não me pergunte por que
Quem-Como-Onde-Qual-Quando-O Que?
Deus, Buda, O tudo, O nada, O ocaso, O cosmo
Como o cosmonauta busca o nado, o nada
Seja lá o que for, já é

Não me obrigue a comer
O seu escreveu não leu
Papai mordeu a cabeça
Do Dr. Sugismundo
Porque sem querer cantou de galo
Cada cabeça é um mundo Gismundo
Antes de ler o livro que o guru lhe deu
Você tem que escrever o seu

Chega um ponto que eu sinto que eu pressinto
Lá dentro, não do corpo, mas lá dentro-fora
No coração e no sol, no meu peito eu sinto
Na estrela, na testa, eu farejo em todo o universo
Que eu to vivo
Que eu to vivo
Que eu to vivo, vivo, vivo como uma rocha
E eu não pergunto
Porque já sei que a vida não é uma resposta
E se eu aconteço aqui se deve ao fato de eu
simplesmente ser
Se deve ao fato de eu simplesmente

Mas todo mundo explica
Explica, Freud, o padre explica, Krishnamurti tá
vendendo
A explicação na livraria, que lhe faz a prestação
Que tem Platão que explica, que explica tudo tão bem vai lá que
Todo mundo explica
protestante, o auto-falante, o zen-budismo,
Brahma, Skol
Capitalismo oculta um cofre de fá, fé, fi, finalismo
Hare Krishna, e dando a dica enquanto aquele
papagaio
Curupaca e implica
Com o carimbo positivo da ciência que aprova
e classifica

O que é que a ciência tem?
Tem lápis de calcular
Que é mais que a ciência tem?
Borracha prá depois apagar
Você já foi ao espelho, nego?
Não?
Então vá!
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quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Indicações ao premio dardos

Esse são os meus indicado ao premio dardos que poderão indicar o premio para outros 15 blogs


Visite!PoematórioVírus, Spam & Cia.Cerebelo na BritaZé do QuiaboCódigos Bloghttp://i153.photobucket.com/albums/s226/mahoutsukaibr/Viciados%20em%20livros/logo-3.jpg

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quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Premio Dardos

É meus amigos fui indicado pela Bárbara ao premio Dardos, depois estarei postando os meus indicados.
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terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Buddha de Odilon Redon
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Jack Kerouac & Allan Watts


Estávamos de mudança. Deus havia nos permitido encontrar um novo caminho para a nossa vida. Meu pai, combalido e num estágio avançado da doença, conseguiu um empréstimo com um parente e esperávamos o caminhão Ford de Ned Sander parar na frente da nossa casa. Íamos saindo de Lowell, deixando para trás cerca de mais de duzentos anos de história. Entretanto, a pobreza corrói o espírito e transforma o corpo em um lar de desespero. O homem falido deixa os hábitos e a sujeira ocupa suas feições. A barba cresce, os olhos passam a procurar o vazio, a coluna arria. Era outubro e o outono abriu meu coração, jorrando lágrimas de palavras sobre a tábua da vida.
Enquanto ouvia discretamente a chuva cair e o silêncio ocupar a paisagem, percebi que a porra do Sander estava atrasado. Meu pai tinha feito a barba, penteado o cabelo e usava o seu melhor traje. Queria sair dos limites da cidade de forma digna, sem que se sentisse um “derrotado pelas coisas”. Mas que merda! Pensei em gritar: Pai, cadê aquele animal? Mas logo vi que essa raiva não era para o homem que se esquecera do compromisso. Percebi que o ódio era da mudança, da urgência da vida e da dependência moral e econômica dos cidadãos da América. Seria uma agressão ao meu velho e sacrificado pai, não um desabafo contra o outro, mas um tiro no meu próprio peito.
Numa das caixas, um livro me chamou a atenção. Era mais um das coleções loucas de minha mãe, uma católica que vertia para um lado mais esotérico e místico da crença. Ela sempre apresentou uma sabedoria unificada a superstições, uma mistura que também me cativou. O título da edição eu não me recordo, lembro-me da capa, bem bonita, uma santa talhada, uma verdadeira obra prima da iconografia cristã. Ele devia ser muito velho, deve ter pertencido a algum parente distante. Ao me aproximar para pegar o livro, um outro título, por baixo desse, estava ainda embrulhado. Mãe que livro é esse, perguntei. Ganhei da Beth, Jean, acho que sobre um estudo de orientalismo, não me recordo o autor, disse ao mesmo tempo em que soltou um suspiro de impaciência, seguido de um olhar para a tristeza de meu pai. Desviei minhas vistas da desgraça e logo me interessei pelo conteúdo daquele objeto. Quem sabe ele não tiraria minha atenção daquele momento e me levaria para o jardim secreto?
Rapidamente tirei o papel pardo que o cobria. Era um livro chamado “O espírito do Zen”, de Alan Watts. Nunca tinha ouvido falar do nome, mas já conhecia um pouco do assunto. Um outro Allan me apresentou algumas lições dadas pelos patriarcas e me explicara sobre a diferença entre o budismo mahayana e o hyrayna, o grande e o pequeno veículo. Explicação essa que tinha ido mesmo para o meu espírito, para o meu inconsciente. Só me lembrava do nome sagrado Sunyata, o nosso estado atual em que estamos todos separados, vazios. Então, abri ao esmo as páginas, encontrei de cara alguns versos para Pu Tai, o Deus da fortuna, que diziam sobre vacas que pastavam em nossos domínios:
Nunca deixem que te afastem/ Do chicote e da corda/Pois, caso contrário, ela fugirá para um mundo profano/ Quando ela for adequadamente domada,/Crescerá pura e dócil/ E mesmo sem cordas, e sem nada que a prenda/ Seguir-te-à espontaneamente
Muito antes de acreditar ser um poema que incentive a violência contra o pobre rebanho, tive a intuição de que a vaca representava uma espécie de recompensa, de alimento. Para alcançá-lo é preciso que dominemos nossos instintos e continuemos com o esforço de educar nossas ações. Quando estivéssemos maduros, aquilo que nos é primário e necessário estaria em nós sem que percebêssemos. Todavia, não estaríamos presos a eles, não necessitaríamos contar os níqueis na carteira, nem lembraríamos de que existem bolsos, pois não pensaríamos neste acordo rasteiro chamado dinheiro.
Ned demorou mais alguns minutos para chegar fazendo barulho e jorrando fumaça sobre nós. Nos mudamos para Nova York, Ozone Park, um bairro operário, cinza, triste, mas pelo menos podíamos nos esconder do frio. Apesar de tudo, da morte de meu pai, das grandes noites de insônia, do longo caminho aos bons lugares da grande maça, foi naquele pequeno apartamento que tive as minhas verdadeiras experiências búdicas. Foi ali em meio ao silencia e à angústia que a força do cristo se uniu ao contemplar de Gautama. Percebi que os dois eram um só e que eu e todos nós também somos eles. Escrevi ali os meus livros e iniciei a minha retomada dali mesmo. Minhas viagens foram feitas a partir dali, assim como minhas amizades, loucuras e amores. E foi naquela vizinhança que Buda se virou pra mim e me cumprimentou. Olha, meu nome é Alan, sou pesquisador e fiquei muito interessado na maneira como escreve. Era alguém ao interfone. Onde conseguiu meu endereço, perguntei. Como disse, sou um pesquisador. Leciono em faculdades, conheço os beats. Tudo bem, pode entrar.
Ele devia ser um pouco mais velho do que eu, uns oito anos, já devia estar quase com quarenta, barba farta, cabelos pretos, mas se encaminhando para o grisalho, sotaque inglês. Entretanto, não se vestia como um inglês. Pensei até que se tratava de alguém da Austrália, cheio de cordões, sua blusa e calça, largas. Gostei de cara do sujeito.
- J. estudo o budismo há muito tempo e sempre vi dois tipos de textos. O considerado sagrado, protegido pelos patriarcas, contendo explicações doutrinárias, questões de lógicas morais e muitos, digamos, enigmas para o homem que não está acostumado a cultura do Oriente - tomou um trago de água e olhou para dentro da própria mente.
- Sei, prossiga...
- O outro tipo são pessoas como eu, que pegaram esses ensinamentos e escreveram racionalmente, tentando interpretar e racionalizar em cima das propostas do budismo e muito também sobre a sua história e contexto social. A questão é que eu nunca havia visto alguém escrever sobre o estado de iluminação dentro da própria literatura, sem necessariamente escrever: estou escrevendo a partir de pensamentos budistas. O tom que demonstra com seus personagens é impressionante búdico. Eles estão todos sobrecarregados de passagens, de idas e vindas sobre o vazio. A vida não é colocada como um fim, mas um meio, uma passagem para que se conquiste a liberdade.
Abro um sorriso, feliz por ter sido reconhecido, mas ainda mais alegre pois realmente senti algo naquele homem. Além disso, estava, justamente naqueles dias, acabando de dar os últimos retoques em meu terceiro título, “Vagabundos Iluminados” (Dharma Bums). Eram lembranças e vivências de um tempo em que considerava a iluminação como a minha principal causa, uma época em que o Zen e o Tao regulavam meus costumes.
- Sabe senhor Watts, eu tive um companheiro de viagem que me ajudou muito. Ele me mostrou sua coleção inteira de haikais e me deu lições básicas de mandarim. Entretanto ele foi para o Japão. Tenho algumas páginas do livro que conto um pouco do tempo em que escalávamos montanhas para sentir a vida em sua extrema transformação, senhor gostaria de fazer uma leitura?
- Não, acho que vou esperar que publiquem. Vim mesmo para olhar sua fortuna.
E na simplicidade de um grande iluminado, pediu licença, agradeceu o papo e a oferta e me desejou paz e equilíbrio.
Alguns anos depois, esse meu amigo que estava para o Japão não aprovou muito do que escrevi. Sua busca por iluminação passava por um silêncio radical sobre a própria experiência. Até entendo esse isolamento, porém, não teria como ter contado sobre as minhas transformações se ele não estivesse por perto. Seu vigor e sua sabedoria foram fundamentais para o processo. Fiquei isolado da humanidade por três meses pela força que ele me passou e agradeço a Deus por ter vivido a angústia do vazio.
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segunda-feira, 8 de dezembro de 2008






WALT WHITMAN foi um grande poeta americano. Nos seus poemas, Whitman celebra o homem moderno e faz da poesia um hino à vida. Foi uma espécie de hippie do século XIX e influência para muitos poetas, incluindo o poeta e ensaísta Fernando Pessoa.
"Esta manhã, antes do alvorecer, subi numa colina para admirar o céu povoado,E disse à minha alma: Quando abarcarmos esses mundos e o conhecimento e o prazer que encerram, estaremos finalmente fartos e satisfeitos?E minha alma disse: Não, uma vez alcançados esses mundos prosseguiremos no caminho."














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Canto de Mim Mesmo

As casas e os quartos estão repletos de perfumes,
as prateleiras estão repletas de perfumes,
Eu próprio aspiro essa fragrância, conheço-a e gosto dela,
Eu próprio dela poderia embriagar-me, mas não o
permitirei.
A atmosfera não é um perfume, não sabe a emanação
alguma, é inodora,
Para sempre ficará na minha boca, por ela me apaixonei,
Irei ao rio junto ao bosque e despojar-me-ei de disfarces
e roupas,
Estou louco por entrar em contacto com ela.
O fumo da minha própria respiração,
Ecos, ondulações, murmúrios e sussurros, raiz do amor,
fio de seda, forquilha e vide,
A minha respiração e inspiração, o bater do coração,
o sangue e o ar que passam pelos meus pulmões,

O odor das folhas verdes e das folhas secas, da praia e das
rochas escuras do mar, e do feno no celeiro,
O som das palavras que a minha voz atira aos remoinhos
do vento,
Alguns beijos leves, alguns abraços, os braços à volta
de um corpo,
O jogo de luz e sombra nas árvores com os dóceis ramos
balouçando,
O prazer de estar só ou no tumulto das ruas, ou pelos
campos e colinas,
A sensação de saúde, os gorjeios do grande meio-dia,
o meu canto ao levantar-me da cama e encontrar o sol.

Achas que mil acres são muitos? Achas que a Terra é muita?
Praticaste o necessário para aprender a ler?
Sentiste-te orgulhoso por captar o sentido dos poemas?

Fica comigo este dia e esta noite e possuirás a origem
de todos os poemas,
Possuirás o que há de bom na Terra e no Sol
(há milhões de sóis)
Não terás coisas em segunda ou terceira mão, nem verás
pelos olhos dos mortos, nem te alimentarás
dos espectros dos livros,
Nem através dos meus olhos verás, nem de mim terás
as coisas,
Escutarás tudo e todos e tudo em ti filtrarás.

WALT WHITMAN
(1819 – 1892)

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Jornalistas e a ditadura

Beatriz Kushnir, 35 anos, aprovada com louvor em outubro de 2001 no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), lança suspeitas sobre um dos mitos cultuados pela imprensa brasileira: o de que jornais e jornalistas foram quixotes na luta contra o regime militar. O trabalho tem 473 páginas e é resultado de cinco anos de pesquisas. Beatriz mirou no que viu e acertou no que não viu. Começou como um estudo da censura à imprensa alternativa e acabou desvendando o grau de colaboracionismo com a ditadura incrustado em algumas redações.

‘Assim como nem todas as redações eram de esquerda, nem todos os jornalistas fizeram do ofício um ato de resistência ao arbítrio’, diz Beatriz Kushnir. ‘Há um desconforto diante da desmistificação generalizante de que os jornalistas combateram a ditadura.’ O trabalho demonstra que os jornais que tiveram um censor na redação não foram tantos assim, que a primeira profissão de parte dos censores era o jornalismo e, pior, que havia um elevado grau de promiscuidade nas relações entre alguns jornalistas e os órgãos de repressão. Beatriz não foge à polêmica. Para a tese de mestrado na Universidade Federal Fluminense (UFF) ela escolheu a história das prostitutas judias que se organizaram em associações de ajuda mútua e ficaram conhecidas como polacas, citadas nos versos de Aldir Blanc para a música ‘O mestre-sala dos mares’ - não por acaso uma das vítimas da censura, que vetou o título original: ‘O almirante negro’.

A historiadora começou a derrubar as ilusões da imprensa brasileira ao pesquisar os documentos do Departamento de Censura de Diversões Públicas da Polícia Federal no Arquivo Nacional, em Brasília, entrevistando 11 censores - exceção para Solange Hernandes, a popular Solange Tesourinha, que mandava cortar tudo o que é filme, livro, texto de teatro e versos de músicas - e uma penca de jornalistas. O porão que escondia os instrumentos legais da censura abrigava também jornalistas de formação. ‘Foi tentando perceber quem eram os censores que me surpreendi ao encontrar já no primeiro grupo deles dez jornalistas.’ Descobriu ainda policiais de carreira que atuaram como jornalistas colaborando com a repressão.

Os três primeiros capítulos mostram a evolução da censura desde a Proclamação da República. É iguaria rara, mas o melhor vem depois. Da posição cínica defendida por um jornal do Rio, em 1976, em defesa de uma ‘censura inteligente’ - feita por pessoal mais bem preparado política e intelectualmente - à constatação de que, na prática, os jornais optaram preferencialmente pela autocensura ao encampar as notas da Polícia Federal transmitidas pelo Serviço de Informação do Gabinete (Sibag), vinculado ao gabinete do ministro da Justiça, mas sem registro no organograma dos órgãos federais - portanto, clandestino. A alternativa era a censura prévia.

Os censores estiveram nas redações para cortar os ‘excessos’ em poucos periódicos. No ‘O Estado de S. Paulo’, do AI-5 a janeiro de 1975, e na ‘Tribuna da Imprensa’, em um período não contínuo, de 1968 a 1978. Na imprensa alternativa freqüentaram ‘O Pasquim’, de novembro de 1970 a março de 1975, ‘O São Paulo’, de junho de 1973 a junho de 1978, ‘Opinião’, de janeiro de 1973 a abril de 1977, e ‘Movimento’, de abril de 1975 a junho de 1978. Na Veja, de 1974 a junho de 1976. A revista foi censurada ainda no berço, logo no número 5, em 1968. Durante todo o governo do general Emílio Garrastazu Médici seria uma das vítimas favoritas do regime. A edição com a capa ‘O presidente não admite torturas’ foi proibida de chegar às bancas.

‘Oliveiros, hoje nós não vamos aí.’

O governo do general Ernesto Geisel, com a promessa de abertura, ainda que lenta, gradual e segura, não deixou de estabelecer os parâmetros do que considerava permitido - mesmo que nos bastidores os ministros Golbery do Couto e Silva, da Casa Civil, e Armando Falcão, da Justiça, mantivessem diálogos com jornalistas anunciando a retirada da censura das redações. As notas proibitivas continuaram a ser transmitidas até fins de 1975. Nos primeiros dias de abril, o número 300 de ‘O Pasquim’ trazia o editorial intitulado ‘Sem Censura’, escrito por Millôr Fernandes, notificando ao leitor que desde 24 de março o tablóide se encontrava livre da censura prévia. Depois de um telefonema do Dr. Romão, o último dos quase 30 censores que o jornal teve em cinco anos, estava decretado que a responsabilidade passava a ser da redação. Sentença semelhante recebeu o então secretário de redação de ‘O Estado de S. Paulo’, Oliveiros S. Ferreira. ‘Eles ficaram do AI-5, em 13 de dezembro de 1968, até 3 de janeiro de 1975, um dia antes do centenário do jornal’, relembra Ferreira. Foi quando ele recebeu um telefonema do chefe dos censores:

- Oliveiros, hoje nós não vamos aí.

Oliveiros:

- Mas, então, quem responde pelo jornal?

- Ah, isso é problema seu. Até logo!

Um ano antes, o humorista Ziraldo, do ‘Pasquim’, havia escrito uma carta ao ministro da Justiça, Armando Falcão, pedindo a volta da censura do jornal para o Rio, que havia seis meses, em represália, era feita em Brasília para atrasar propositadamente o fechamento das edições. Ao fim da carta, além da assinatura, um desenho: a mão de um homem que se afogava e a palavra ‘help’. ‘Millôr Fernandes já havia advertido em seu editorial que o rompimento repentino da censura embutia a noção de que deixar de intervir era uma concessão que deveria ser paga com responsabilidade’, lembra Beatriz. ‘Sem censura não quer dizer com liberdade’, terminava o texto de Millôr.

A censura espalhou vítimas para todos os lados. O cineasta francês Jean Luc Godard foi uma delas. No regime militar teve proibido o filme ‘A chinesa’. Em 1984, a censura a outro de seus filmes, ‘Je vous salue, Marie’, geraria protestos calorosos, a demissão do ministro da Justiça, na época o deputado federal pernambucano Fernando Lyra, e a exposição da permanência de atos censórios em um período de suposta redemocratização. Alguns jornais e jornalistas que não aderiram à resistência se bandearam para o outro lado. ‘Cães de guarda’ revela o papel duplo de uns e outros. Jornalistas que foram censores federais - e também policiais - e vice-versa dividiam as redações com as chamadas bases esquerdistas que, segundo o regime militar, sempre as dominaram. ‘No Brasil da censura existiam também os jornalistas colaboracionistas’, afirma Beatriz. ‘Eles foram verdadeiros cães de guarda.’

Um deles, segundo a tese, tomou conta do jornal ‘Folha da Tarde’, do Grupo Folha da Manhã, de 1967 a 1984. Todo o quarto capítulo narra a trajetória do jornal nos seus dois períodos: do renascimento, em 1967, até o AI-5. Beatriz Kushnir investigou a redação da ‘Folha da Tarde’ de 1967, que estava vinculada à cobertura dos movimentos políticos da época e tinha em seus quadros militantes de esquerda, até ser conhecida como ‘Diário Oficial da Oban’ (Operação Bandeirantes). ‘Cheguei à história da ‘Folha da Tarde’ por acaso’, conta. A historiadora tentava uma entrevista com o senador Romeu Tuma (PFL-SP), diretor do Departamento de Polícia Federal que rompeu com a tradição de militares no cargo desde a sua criação, em 1964. Chegou a entrar em contato com o seu assessor de Imprensa, em São Paulo, mas não conseguiu agendar um encontro. Ao entrevistar o jornalista Boris Casoy, âncora do Jornal da Record, para compreender os reflexos da censura na redação da ‘Folha de S. Paulo’, que ele dirigia na época, ficou sabendo quem era o assessor do senador e o significado da frase ‘o jornal de maior tiragem’.

Nos dois casos bateu na figura de Antonio Aggio Jr. A queda com o AI-5 do jornalista Jorge Miranda Jordão, hoje em ‘O Dia’, da direção de redação da ‘Folha da Tarde’, abriu espaço para outro grupo de profissionais. Antonio Pimenta Neves, que mais de 30 anos depois responde a processo pelo assassinato da namorada, era um deles. Aggio, ex-editor do jornal ‘Cidade de Santos’, viria depois. ‘Sob o comando dele o jornal deu uma guinada à direita’, diz Beatriz. ‘O clima de delegacia policial resistiu 15 anos e o jornal ganhou o apelido de ser o de ‘maior tiragem’ em São Paulo, não por causa da circulação, mas pelo número de tiras (policiais) que empregava.’

Acusado de colaborar, Aggio diz que também foi parar na Oban

Aggio rebate. ‘Essa tese é um negócio tortuoso para garantir o título de doutora à historiadora.’ Segundo o assessor do senador Tuma, a reformulação da ‘Folha da Tarde’ e o Projeto Folha, de 1984, quando o jornal passaria por nova mudança, nada teve a ver com ideologia, mas com mercado. ‘Nunca houve uma redação mais democrática que a da Folha da Tarde. Nunca se perguntou a coloração ideológica de ninguém por lá. Muitos esquerdistas trabalham no jornal até hoje’, afirma o jornalista. Aggio diz que todo o noticiário policial e militar tinha como fonte a Agência Folha e era publicado por todos os jornais do grupo. ‘Uma vez houve um incidente com o pessoal da luta armada em Osasco e como a ‘Folha da Tarde’ deu a notícia fui parar na Oban e no II Exército. Se fosse ligado à repressão não teriam me chamado para prestar esclarecimentos.’

‘Havia pressão psicológica e armada, além de econômica, mas nunca a família Frias me pediu para mudar a linha do jornal para aderir ao regime. Obedecíamos ao que a censura impunha porque não havia saída. Depois que deixei a direção do jornal, ele mudou de linha editorial’, diz Jorge Miranda Jordão, antecessor de Antonio Aggio na ‘Folha da Tarde’. ‘A imprensa nunca foi quixote, mas também não chegou a ser um Exército de Brancaleone. Talvez uns dez por cento das redações apoiassem o regime até por convicção política.’

‘Cães de guarda’ remexe em histórias nada edificantes. É o caso de uma manchete estampada pela ‘Folha da Tarde’ em abril de 1971 anunciando a morte do guerrilheiro Roque em confronto com a polícia paulistana. Roque era o codinome do metalúrgico Joaquim Seixas, preso com o filho Ivan, então com 16 anos. Militantes do Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT), os dois tinham sido presos acusados pelo assassinato do industrial Enning Boilesen, um dos financiadores da Operação Bandeirantes, apenas um dia depois do crime, e foram torturados na Oban. Ivan leu a manchete sobre a morte do pai em uma banca de jornal ao ser levado pelos policiais para um ‘passeio’. Na volta ainda encontrou Joaquim vivo. Ele seria morto, de fato, horas depois. Os jornais do dia seguinte se limitariam a reproduzir a nota oficial dos órgãos de repressão com a notícia que a ‘Folha da Tarde’ havia estampado na véspera com detalhes, segundo a tese, como se tivesse repórter no local.

‘Toda a caçada ao capitão Carlos Lamarca, que havia desertado do Exército levando armas e munições do quartel de Quintaúna, em São Paulo, comandado pelo coronel Antônio Lapiane, tio de Ággio, que até hoje é vinculado à Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, vinha carregada de tintas fortes e se referia ao guerrilheiro como ‘louco’, afirma Beatriz. ‘A esquerda atribui à ‘Folha da Tarde’ a legalização de muitas mortes em tortura e `assassinatos acidentais´ de militantes em confronto com a polícia. Se sumissem todos os jornais que circularam um dia depois da missa ecumênica pela morte do jornalista Wladimir Herzog e só restasse a ‘Folha da Tarde’, não se saberia de nada. A cerimônia parou São Paulo, mas a FT não deu uma linha.’

A relação entre jornalistas e policiais já tinha sido exposta por Percival de Souza, repórter setorista de Polícia de ‘O Estado de S. Paulo’ e do ‘Jornal da Tarde’ e autor de biografias de figuras sombrias da ditadura, como o delegado Sérgio Paranhos Fleury, o temido e sanguinário torturador do Deops do Largo General Osório, em São Paulo, desenhado por ele como um amante adolescente. ‘Cães de guarda’ vai além. Esmiúça até à sarjeta o papel da imprensa na ditadura. Para se adaptar à autocensura não faltaram estratégias peculiares. A editora de uma revista de circulação nacional preparou um funcionário para dar curso aos censores de como realizar a tarefa. Uma rede de televisão contratou ex-censores para delimitar o permitido. Por abrigar jornalistas colaboracionistas algumas redações ficaram conhecidas como ‘ninho de gansos’. Era assim que eles eram tratados nos órgãos de repressão. Os jornalistas da ‘casa’ que cobriam o Deops não passavam pela revista a que eram submetidos os colegas com menos intimidade com os porões da ditadura - seguiam direto por uma entrada lateral, reservada aos policiais, apelidada de ‘passagem dos gansos’.

‘Muitos jornalistas trocaram a narrativa de um acontecimento pela publicação de versões que corroborassem o ideário repressivo’, diz Beatriz. ‘Fiéis aos seus donos, os cães de guarda farejaram uma brecha e, ao defender o castelo, nos venderam uma imagem errada. Quando o tabuleiro do poder mudou, muitos desses servidores foram aposentados, outros construíram para si uma imagem positiva e até mesmo heróica, distanciando-se do que haviam feito. Outros tantos se readaptaram e estão na mídia como sempre.’ Talvez alguns jornais brasileiros nunca tenham se aproximado tanto da imagem de papel de embrulhar peixe."

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Tatuagem X Preconceito

http://www.tatuagem.com.br/images/stories/tattooed-doctor.jpg

Aumento do número de pessoas com tatuagem e piercing gera polêmica no mercado de trabalho

Uma flor na nuca, um dragão colorido no braço, uma bola de metal na ponta da língua. Discretos e chamativos, tatuagem e piercing, que um dia foram símbolo de rebeldia, ganham, a cada dia, mais adeptos – inclusive no mundo corporativo. E provocam, entre chefes, as mais diferentes reações. Por isso, segundo especialistas da área de Recursos Humanos, antes de decidir usar uma tatuagem ou um piercing, o profissional deve fazer uma avaliação do grau de conservadorismo de sua área de atuação.

Em áreas mais novas, como internet, telecomunicações e publicidade, o visual pode ser comum. Mas instituições com um perfil mais sóbrio, como bancos, escritórios de advocacia, hotéis e hospitais estão atentos à formalidade na apresentação do funcionário.

Empresa foi denunciada por discriminação no Paraná

“A tatuagem e o piercing ainda são associados, por alguns chefes mais conservadores, à excentricidade. Minha recomendação para alguém que deseja conquistar uma vaga é evitar esses adornos em lugares visíveis. Pode até haver neutralidade ou tolerância em relação ao assunto, mas ninguém será contratado porque é tatuado” – diz a diretora-executiva da Dasein Assessoria Empresarial, Adriana Prates.

A procuradora e coordenadora do Núcleo de Defesa dos Direitos da Personalidade do Ministério Público do Trabalho do Rio, Lisyane Motta, destaca que ninguém pode ser discriminado por ter tatuagem ou piercing.

“Recentemente, no Paraná, uma empresa foi denunciada por empregados, pois estabelecia normas em relação a vestimentas e acessórios, entre elas a proibição de tatuagens e piercings. Os funcionários entenderam que o empregador só poderia exigir asseio pessoal.”

Admiradores dos adornos concordam. Caso da advogada Renata Vasques, que trabalha num grande escritório. Ela tem uma tatuagem no pescoço e quer fazer outra, no pé: “De certa forma, eu até acabo me tolhendo. Tenho um cavalo marinho delicado e vou escolher um desenho discreto para o pé. Mas não deixo de fazer, afinal uma tatuagem não pode ser relacionada à eficiência. E também não significa que eu não mantenha uma postura formal, inclusive na forma de me vestir”.

Ainda que as empresas não divulguem a proibição do uso de tatuagens e piercings, o critério pode acabar sendo usado na hora da contratação. É o que destaca Lisyane Motta, do Núcleo de Defesa dos Direitos da Personalidade.

“É algo tão sutil que fica difícil apurar. Por isso acontece muito. É diferente de preconceito de cor ou de sexo, que pode ser detectado numa pesquisa do quadro de funcionários.”

Acreditando que a mente dos chefes mudaram, o fisioterapeuta André Lauria decidiu, há dois meses, fazer uma tatuagem num local do corpo aparente: o antebraço. Lauria, que é fisioterapeuta do time de futebol da Universidade Estácio de Sá, estava empregado há apenas um mês na clínica Fisiobarra, também da instituição.

“O diretor da clínica se surpreendeu e comentou que eu não deveria ter feito num local tão exposto, pois poderia chocar os pacientes. Mas frisou que minha competência estava acima disso. E a tatuagem, que é meu sobrenome, não transmite rebeldia. É uma exaltação à minha família.”

Segundo pesquisa, 70% dos que se tatuam são mulheres.

Mais radical, com várias tatuagens e piercings, a terapeuta capilar Cíntia Araújo, do Salão Fashion Clinic, faz coro: “Atendemos senhoras muito sofisticadas, mas fiz meu nome dentro da minha área e é isso que importa para elas: serem atendidas por uma boa profissional e saírem daqui com os cabelos mais bonitos.”

O fato é que, hoje em dia, as tatuagens vão muito além do universo dos velho marujos. Caio Freire, um dos mais antigos tatuadores do Rio e presidente da Associação de Tatuadores da cidade, conta que hoje seus clientes são executivos, médicos e juízes. O presidente do Sindicato dos Tatuadores e Bodypiercing Profissionais do Estado do Rio, Alexandre Oazen, diz que uma pesquisa mostra que o número de pessoas que se tatuam dobrou de 2001 para 2004. E que 70% são mulheres.

Mas nem todos concordam que a tatuagem ou o piercing devam ser compartilhados com os colegas de trabalho. Silvana Pontes, supervisora de aeroporto da Team – companhia aérea que faz vôos regionais – tem uma tatuagem no tornozelo feita há 20 anos, mas, quando está trabalhando, só usa calças. E também não permite que suas subordinadas tenham o adorno em local do corpo que não possa ficar escondido pela roupa: “Nosso público é a elite da elite. Temos que ter um padrão de apresentação, que inclui maquiagem, unhas bem feitas e nada de tatuagem ou piercing, que não condizem com a imagem que queremos transmitir.”

Fonte - Jornal O Globo - Caderno Boa Chance - 01/05/2005
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